Vasco cata os cacos após goleada sofrida para o Palmeiras e ainda enfrenta bloqueio milionário nos bastidores
O domingo (23) foi daqueles para esquecer rápido em São Januário. Ou melhor: daqueles para não esquecer, para que sirvam de aprendizado. O Vasco entrou em campo contra o líder Palmeiras, no Nubank Parque, fez um primeiro tempo digno de aplausos, e viu tudo desmoronar em dez minutos avassaladores do segundo tempo. O resultado final, 4 a 1, escondeu o quanto o Cruz-Maltino chegou perto de sair de lá com pontos — e escancarou, mais uma vez, a distância que separa o time da parte de cima da tabela.
E como se a bagunça dentro de campo não bastasse, a torcida vascaína também precisa lidar com um problema sério fora dele: a Justiça do Rio de Janeiro segue travando a liberação de um empréstimo de R$ 150 milhões que era fundamental para o clube reforçar o elenco na reta final da janela de transferências.
Vamos por partes.
O jogo: um primeiro tempo de dar orgulho, um segundo tempo de pesadelo
Quem esperava vexame viu o contrário nos primeiros 45 minutos. O Vasco jogou de igual para igual com o líder do Brasileirão, criou as melhores chances da etapa inicial e assustou o gigante paulista mais de uma vez. Thiago Mendes teve a bola do 1 a 0 nos pés, recebendo de Adson dentro da área, mas chutou em cima do goleiro Carlos Miguel. Pouco depois, foi a vez de David arriscar de fora da área, também parando em boa defesa do arqueiro palmeirense antes de ser flagrado em impedimento numa outra chegada.
Do outro lado, um Palmeiras apático, sem inspiração, dependendo de Carlos Miguel para não sair atrás do placar. Terminou o primeiro tempo 0 a 0, e São Januário — ou melhor, o torcedor vascaíno em frente à TV — podia sonhar com um resultado histórico fora de casa.
Foi só o intervalo acabar que o pesadelo começou. Em apenas dez minutos de bola rolando, o Palmeiras destruiu o jogo:
- 1′ do 2ºT: Flaco López abre o placar com um golaço de fora da área;
- 5′ do 2ºT: Vitor Roque converte pênalti após bola na mão de Carlos Cuesta;
- 10′ do 2ºT: Maurício aproveita erro de Santiago Sosa e bate para fazer o terceiro.
O jogo, que era disputado ponto a ponto, virou uma sentença em questão de minutos. O Vasco tentou reagir, teve chances com Nuno Moreira e Avellar, mas esbarrou de novo em Carlos Miguel. Aos 44 do segundo tempo, Flaco López ainda fez mais um golaço para fechar a goleada em 4 a 0, antes de Facundo Colidio, recém-chegado ao clube, marcar seu primeiro gol com a camisa Cruz-Maltina nos acréscimos, decretando o 4 a 1 final.
Os números que doem
Com a derrota, o Vasco: continua na zona de rebaixamento brasileirão
- Segue estacionado nos 22 pontos, na 19ª colocação, dentro da zona de rebaixamento;
- Chegou a oito jogos consecutivos sem vencer no Brasileirão;
- Segue sem vencer fora de casa na competição nesta edição;
- Viu o Palmeiras disparar na ponta, com 51 pontos, abrindo seis de vantagem sobre o vice-líder Flamengo.
O sentimento que fica é de um time que compete, que tem argumentos para incomodar qualquer adversário por um tempo, mas que ainda não sustenta essa intensidade por 90 minutos — e que paga caro por cada lapso de concentração. Contra um elenco do nível do Palmeiras, dez minutos de apagão bastaram para transformar um resultado respeitável em goleada.
Agora é hora de catar os cacos e virar a página rápido: o próximo compromisso já é na quarta-feira (26), contra o Vitória, pela ida das quartas de final da Copa do Brasil — uma competição que, ao menos por enquanto, segue como a luz no fim do túnel para a temporada vascaína.

O bastidor: o bloqueio do empréstimo DIP trava o mercado
Enquanto o time sofre dentro de campo, a diretoria vive um sufoco ainda maior fora dele. O Vasco está em recuperação judicial e dependia da liberação de um novo empréstimo DIP (Debtor-in-Possession), de até R$ 150 milhões, para equilibrar as contas e ainda ter fôlego para reforçar o elenco nesta janela.
O problema é que a Justiça do Rio negou, por enquanto, esse financiamento. A 4ª Vara Empresarial, sob responsabilidade da juíza Simone Gastesi Chevrand, decidiu travar qualquer novo endividamento do clube acima de R$ 5,9 milhões até que a auditoria independente conduzida pela ICTS Global apresente um relatório sumário sobre as contas da SAF. Entre os pontos que motivaram a cautela da Justiça está o fato de o Vasco ter recebido, em julho, um primeiro DIP de R$ 40 milhões sob a justificativa de risco de caixa negativo — mas ter fechado o mês com cerca de R$ 15 milhões de superávit, o que levantou dúvidas sobre as projeções financeiras apresentadas pelo clube.
O impacto direto no mercado da bola
Esse teto de R$ 5,9 milhões emperrou negociações que estavam encaminhadas:
- A contratação do atacante Bruno Duarte, do Estrela Vermelha, já tinha aval do clube sérvio e do próprio jogador — mas o valor da operação ultrapassa o limite liberado pela Justiça;
- A vinda do zagueiro Diego Carlos, do Fenerbahçe, também avançava bem, mas está no mesmo impasse;
- Outras conversas por um ponta e um meio-campista de ligação (a famosa camisa 8) seguem andando, mas sem previsão de destravar.
A diretoria de futebol não desistiu dos alvos, mas admite que, sem o dinheiro em caixa, dificilmente sairão contratações relevantes antes do fechamento da janela.
O que o clube está fazendo para tentar reverter o cenário

O Vasco não ficou parado. A SAF entrou com um Agravo de Instrumento no Tribunal de Justiça do Rio, pedindo que a análise do novo DIP seja separada da conclusão da auditoria — argumentando que são questões de naturezas distintas e que não deveriam estar condicionadas uma à outra. No recurso, o clube pede, entre outras coisas, a suspensão imediata da trava de R$ 5,9 milhões e, caso o pedido principal não seja aceito, ao menos a liberação da parcela inicial de R$ 83 milhões do financiamento.
Como alternativa para amenizar o aperto no caixa, ganhou força a sinalização de Marcos Lamacchia, empresário que negocia a possível compra da SAF vascaína, de antecipar recursos para garantir os pagamentos da recuperação judicial previstos para os próximos dois anos — o que aliviaria parte da pressão sobre os credores enquanto a disputa judicial pelo novo empréstimo não se resolve.
Por ora, a palavra de ordem no departamento de futebol é paciência. O CEO da Vasco SAF, Fred Luz, já alertou que a falta de recursos pode gerar atrasos até em compromissos básicos, como folha salarial e direitos de imagem, caso o impasse se estenda.
Um domingo (e uma semana) para não esquecer
Resumindo o fim de semana vascaíno: dentro de campo, uma atuação de duas caras — competitiva no primeiro tempo, frágil no segundo — que resultou em mais uma derrota dolorosa e manteve o time no Z4. Fora dele, um cabo de guerra judicial que decide, na prática, se o Cruz-Maltino terá ou não condições de brigar por reforços nesta janela.
São dois problemas separados, mas que se alimentam: quanto mais o time perde, mais urgente fica a necessidade de reforçar o elenco — e quanto mais trava o empréstimo, mais difícil fica para a diretoria dar essa resposta à torcida.
O Vasco agora vira a chave para a Copa do Brasil, contra o Vitória, na quarta-feira. Dentro de campo, a missão é recuperar a confiança. Fora dele, a torcida só pede uma coisa: que a Justiça e a diretoria encontrem logo um caminho para destravar o caixa — porque, sem isso, o “esperar terça-feira” pode virar rotina até o fim da temporada.
Segue o jogo, Vasco.

